Por Ricardo Gondim
As Casas Bahia disputam o mesmo mercado que a Magazine Luiza. As duas lojas se engalfinham para abocanhar o filão dos eletrodomésticos, guarda-roupas de madeira aglomerada e camas de esponja fina. Buscam conquistar assalariados, serralheiros, aposentados e garis. Em seus comercias, o preço da geladeira aparece em caracteres pequenos, enquanto o valor da prestação explode gigante na tela da televisão. A patuléia calcula. Não importa o número de meses, se couber no orçamento, uma das duas, Bahia ou Luiza, fecha o negócio - o juro embutido deve ser um dos maiores do mundo.
Toda noite, entre oito e dez horas, a mesma lengalenga se repete nos programas evangélicos. Pelo menos quatro “ministérios” concorrem em outro mercado: o religioso. Todos caçam clientes que sustentem, em ordem de prioridade, os empreendimentos expansionistas, as ilusões messiânicas e o estilo de vida nababesco dos líderes. Assim, cada programa oferece milagres e todos calçam suas promessas com testemunhos de gente que jura ter sido brindada pelo divino. Deus lhes teria abençoado com uma vida sem sufoco. Infelizmente, o preço do produto religioso nunca é explicitado. Alardeia-se apenas a espetacular maravilha.
Considerando que a rádio também divulga prodígios a granel, como um cliente religioso pode optar? Para preferir uma igreja, precisa distinguir sobre qual missionário, apóstolo, pastor ou evangelista, Deus apontou o dedo. E se tiver uma filha com leucemia aguda, não pode errar. Ao apelar para uma igreja com pouco poder, perde a filha.
O correto seria freqüentar todas. Mas como? Em nenhuma dessas igrejas televisivas o milagre é gratuito ou instantâneo. As letrinhas, que não aparecem na parte de baixo do vídeo, afirmariam que, por mais “ungido” que for o missionário, um monte de exigência vem embutida na promessa da bênção. É preciso ser constante nos cultos por várias semanas, contribuir financeiramente para que a obra de Deus continue e, ainda, manter-se corretíssimo. Um deslize mínimo impede o Todo Poderoso de operar; qualquer dúvida é considerada uma falta de fé, que mata a possibilidade do milagre.
Lojas de eletrodoméstico vendem eletrodoméstico, óbvio. Igrejas evangélicas comercializam a idéia de que agenciam o favor divino com exclusividade. E por esse serviço, cobram caro, muito caro. Afinal de contas, um produto celestial não pode ser considerado de quarta categoria. A "Brastemp" espiritual que os teleevangelistas oferecem vem do céu.
O acesso ao milagre se complica, porque todos mercadejam o mesmo produto. Os critérios de escolha se reduzem a prazo de entrega, conforto e garantia.
Opa, quase esqueci! As lojas, em conformidade com o Código do Consumidor, são obrigadas a dar garantia, mas as igrejas evangélicas não dão garantia alguma. O cliente nunca tem razão. Quando a filha morrer de leucemia, o pai, além de enlutado, será responsabilizado pela perda. Vai ter que escutar que a menina morreu porque ele “deu brecha” para o diabo, não foi fiel ou não teve fé.
Mercadologicamente, Casas Bahia e Magazine Luiza estão bem à frente das igrejas. Melhor assim, geladeira nova é bem mais útil do que a ilusão do milagre.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Campanha da Fraternidade 2010

11/01/2010 - Ecumênica
Maiá Menezes - O Globo, em 10/09/2009
RIO - O tema da Campanha da Fraternidade 2010, que será oficialmente lançadano dia 17 de fevereiro, foi divulgado nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro, aos pés do Cristo Redentor e sob intensa névoa.
A campanha do ano que vem reunirá as cinco igrejas do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil, entre elas a Católica. Será ecumênica pela terceira vez.
Tirada do evangelho de São Mateus, o lema "Vocês não podem servir a Deus e ao diabo" traduz a preocupação com "uma economia a serviço da vida", que caminhe para uma "sociedade sem exclusão", segundo o reverendo anglicano Luiz Alberto, secretário-geral do Conic.
Apesar de não ser o eixo principal da campanha, também consta no material e no discurso dos que a coordenam a preocupação com a mistura entre religião e dinheiro. Em seu discurso, o reverendo Luiz Alberto fez o alerta:
- Hoje, como no passado, as comunidades cristãs devem se interrogar sobre seu patrimônio, seu uso do dinheiro e seu compromisso com a transformação econômica e social do país.
O texto-base, divulgado ontem, também faz referência a essa preocupação. "As comunidades cristãs precisam resistir à tentação de transformar o culto a Deus em moeda para a obtenção de prosperidade. O cristão é um servidor, não alguém que recorre a Deus em busca de favores", diz trecho na página 66 do documento.
Dom Dimas Lara Barbosa, secretário geral da CNBB, afirmou, em entrevista, que a teologia da prosperidade é "neopagã" e se confronta com o evangelho.
Contundente, o documento faz ainda críticas à dificuldade na implantação de políticas públicas, como a reforma agrária:
"As fracas políticas de reforma agrária falharam nos seus objetivos de reduzir a concentração a terra e também falharam em oferecer condições dignas de trabalho a milhões de famílias de trabalhadores que foram expulsos da terra por meios corruptos e violentos ou por tragédias climáticas. Há uma intensa e contínua expansão do agronegócio e de várias formas de atividade econômica, baseadas no uso irresponsável dos recursos naturais". O texto fala ainda em corrupção: "Tomamos conhecimento todos os dias de uma deplorável série de formas de corrupção, com políticos que usam seu cargo para obter lucro e privilégio para si e para seus aliados, colocando interesses econômicos acima das reais necessidades do povo".
Convidada para o encontro, a senadora Marina Silva (PV-AC), evangélica da Assembleia de Deus, foi saudada por turistas como candidata à presidência e afirmou que "não temos como ser solidários sem preservarmos a base do desenvolvimento". Ela disse ainda que costuma ser criticada por acreditar em utopias, mas que o "pragmatismo tem destruído a natureza e as relações políticas".
Jesus veio buscar e salvar o perdido (João 3.16-21)
Por Rev. Guilhermino Cunha
“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (VS.16)
A missão do Filho de Deus foi buscar e salvar o que se havia perdido. O pecado aliena o homem de Deus, o faz viver em rebeldia e contrariamente ao que a Palavra de Deus ordena. Desobediência e rebeldia fazem parte do cerne da Queda. Esta palavra é o que ela significa: Cair da Graça de Deus, deixar de ouvir a voz de Deus e obedecê-lo, para ouvir a voz enganosa da Serpente, do Diabo.
(I) SALVOS DE QUE E PARA QUE?
• Somos salvos dos nossos pecados pesados: “Dos teus pecados não me lembrarei mais, diz o Senhor.” (Jeremias 31.34). Somos libertos da culpa e do peso daqueles pecados.
• Somos salvos dos nossos pecados presentes: Eu e você vivemos pela Graça, pelas misericórdias de Deus que se renovam a cada manhã, como ensina o profeta Jeremias em Lamentações 3.22 ss. Quem sobrevive pelo perdão, pela graça e pela misericórdia, não pode, nem deve viver julgando ou prejulgando uns aos outros, Como quase sempre acontece.
• Somos salvos dos nossos pecados futuros: Há poder no sangue de Jesus para perdoar e salvar a todos os que creem e confessam a Jesus Cristo. “ A Redenção é universal, mas a salvação é pessoal.” Acontece para os que estão “em Cristo”. Neste mês da Reforma, reafirmamos: “Solus Christus” – Cristo somente e apenas Cristo; “Sola Gratia”, a Graça somente; “Sola Scriptura”, a Escritura somente; e “Sola Fides”, a fé somente.
• Seremos, um dia, postos a salvo e totalmente imunes à presença do pecado. É claro que isto somente se dará do outro lado da eternidade. Por enquanto, precisamos orar como Jesus ensinou: ... Não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal.” (MT 6.13).
(II) LIÇÕES DEVOCIONAIS PRECIOSAS DE JOÃO 3.16
1ª) A expressão “de tal maneira” nos ensina que o amor de Deus foi em grau infinito e de tal maneira glorioso, unilateral e incondicional que nos desafia a amar, como Ele nos amou; a perdoar, como Ele nos perdoou; e a compreender, como Ele nos compreende. Por mais difícil ou quase impossível que seja, o ideal a ser perseguido é este.
2ª) Deus amou, ama e amará sempre: porque DEUS É AMOR, SEM QUE O AMOR SEJA DEUS. Deus é sempre pleno de amor e vida. Tomemos todas as virtudes humanas, elevemo-las à sua máxima potência, o quadro resultante será tão somente uma pálida sombra se comparado com o amor-vida que é Deus. Basta lembrar 1ª de João 4.19: “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro”, para compreendermos que o nosso amor é resposta ao grande e maravilhoso amor de Deus.
3ª) O sujeito do amor é Deus o objeto é o homem e o mundo. As palavras “para que todo aquele que nele crê” sinalizam que não são as árvores, nem os animais, nem as aves ou os peixes, e sim a raça humana é o objeto do amor salvífico de Deus..
4ª) O propósito de Deus é “para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Deus não abandonou a humanidade; em Cristo, Ele veio “buscar e salvar o perdido”. Levantar o caído, em nome de Jesus! É a Missão da Igreja.
.
Concluindo,
• Deus veio, em Cristo, para buscar e salvar; não para condenar. A salvação é oferecida gratuitamente, em Cristo: “Não endureças o teu coração...”
• O propósito redentor não se limita ao “povo eleito”, os judeus; mas a todos os eleitos, em todos os tempos e lugares;
• O objetivo essencial da primeira vinda de Cristo foi para salvar e não para julgar;
• O que crê não será condenado, o que não crê já está condenado. A pessoa que tem Cristo, pela fé, não é julgada, ou seja, Romanos 8.1 é verdade.
• A pessoa que rejeita a Jesus Cristo, como o Filho de Deus que veio em carne, já está condenada: o julgamento final será apenas declaratório.
“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (VS.16)
A missão do Filho de Deus foi buscar e salvar o que se havia perdido. O pecado aliena o homem de Deus, o faz viver em rebeldia e contrariamente ao que a Palavra de Deus ordena. Desobediência e rebeldia fazem parte do cerne da Queda. Esta palavra é o que ela significa: Cair da Graça de Deus, deixar de ouvir a voz de Deus e obedecê-lo, para ouvir a voz enganosa da Serpente, do Diabo.
(I) SALVOS DE QUE E PARA QUE?
• Somos salvos dos nossos pecados pesados: “Dos teus pecados não me lembrarei mais, diz o Senhor.” (Jeremias 31.34). Somos libertos da culpa e do peso daqueles pecados.
• Somos salvos dos nossos pecados presentes: Eu e você vivemos pela Graça, pelas misericórdias de Deus que se renovam a cada manhã, como ensina o profeta Jeremias em Lamentações 3.22 ss. Quem sobrevive pelo perdão, pela graça e pela misericórdia, não pode, nem deve viver julgando ou prejulgando uns aos outros, Como quase sempre acontece.
• Somos salvos dos nossos pecados futuros: Há poder no sangue de Jesus para perdoar e salvar a todos os que creem e confessam a Jesus Cristo. “ A Redenção é universal, mas a salvação é pessoal.” Acontece para os que estão “em Cristo”. Neste mês da Reforma, reafirmamos: “Solus Christus” – Cristo somente e apenas Cristo; “Sola Gratia”, a Graça somente; “Sola Scriptura”, a Escritura somente; e “Sola Fides”, a fé somente.
• Seremos, um dia, postos a salvo e totalmente imunes à presença do pecado. É claro que isto somente se dará do outro lado da eternidade. Por enquanto, precisamos orar como Jesus ensinou: ... Não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal.” (MT 6.13).
(II) LIÇÕES DEVOCIONAIS PRECIOSAS DE JOÃO 3.16
1ª) A expressão “de tal maneira” nos ensina que o amor de Deus foi em grau infinito e de tal maneira glorioso, unilateral e incondicional que nos desafia a amar, como Ele nos amou; a perdoar, como Ele nos perdoou; e a compreender, como Ele nos compreende. Por mais difícil ou quase impossível que seja, o ideal a ser perseguido é este.
2ª) Deus amou, ama e amará sempre: porque DEUS É AMOR, SEM QUE O AMOR SEJA DEUS. Deus é sempre pleno de amor e vida. Tomemos todas as virtudes humanas, elevemo-las à sua máxima potência, o quadro resultante será tão somente uma pálida sombra se comparado com o amor-vida que é Deus. Basta lembrar 1ª de João 4.19: “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro”, para compreendermos que o nosso amor é resposta ao grande e maravilhoso amor de Deus.
3ª) O sujeito do amor é Deus o objeto é o homem e o mundo. As palavras “para que todo aquele que nele crê” sinalizam que não são as árvores, nem os animais, nem as aves ou os peixes, e sim a raça humana é o objeto do amor salvífico de Deus..
4ª) O propósito de Deus é “para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Deus não abandonou a humanidade; em Cristo, Ele veio “buscar e salvar o perdido”. Levantar o caído, em nome de Jesus! É a Missão da Igreja.
.
Concluindo,
• Deus veio, em Cristo, para buscar e salvar; não para condenar. A salvação é oferecida gratuitamente, em Cristo: “Não endureças o teu coração...”
• O propósito redentor não se limita ao “povo eleito”, os judeus; mas a todos os eleitos, em todos os tempos e lugares;
• O objetivo essencial da primeira vinda de Cristo foi para salvar e não para julgar;
• O que crê não será condenado, o que não crê já está condenado. A pessoa que tem Cristo, pela fé, não é julgada, ou seja, Romanos 8.1 é verdade.
• A pessoa que rejeita a Jesus Cristo, como o Filho de Deus que veio em carne, já está condenada: o julgamento final será apenas declaratório.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
A Oração

Por Rubem Alves
Hoje vou escrever sobre a arte de "rezar". Dirão que esse não é tópico que devesse ser tratado por um terapeuta. Rezas e orações são coisas de padres, pastores e gurus religiosos, a serem ensinadas em igrejas, mosteiros e terreiros. Acontece que eu sei que o que as pessoas desejam, ao procurar a terapia, é reaprender a esquecida arte de rezar. Claro que elas não sabem disto. Falam sobre outras coisas, dez mil coisas. Não sabem que a alma deseja uma só coisa, cujo nome esquecemos. Como disse T. S. Eliot, temos conhecimento do movimento, mas não da tranqüilidade; conhecimento das palavras e ignorância da Palavra. Todo o nosso conhecimento nos leva para mais perto da nossa ignorância, e toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte.
A terapia é a busca desse nome esquecido. E quando ele é lembrado e é pronunciado com toda a paixão do corpo e da alma, a esse ato se dá o nome de poesia. A esse ato se pode dar também o nome de oração.
Por detrás da nossa tagarelice (falamos muito e escutamos pouco) está escondido o desejo de orar. Muitas palavras são ditas porque ainda não encontramos a única palavra que importa. Eu gostaria de demonstrar isso - e a demonstração começa com um passeio. Para começar, abra bem os olhos! Veja como este mundo é luminoso e belo! Tão bonito que Nietzsche até mesmo lhe compôs um poema:
“Olhei para este mundo - e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura dourada maçã de pele de veludo fresco... Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu...“
Tudo está bem. Tudo está em ordem. Nada impede o deleite dessa dádiva. Ninguém doente. Nenhuma privação econômica terrível. E há mesmo o gostar das pessoas com quem se vive, sem o que a vida teria um gosto amargo.
Mas isso não é tudo. Além das necessidades vitais básicas a alma precisa de beleza. E a beleza - o mundo a serve a mancheias. Está em todos os lugares, na lua, na rua, nas constelações, nas estações, no mar, no ar, nos rios, nas cachoeiras, na chuva, no cheiro das ervas, na luz que cintila na água crespa das lagoas, nos jardins, nos rostos, nas vozes, nos gestos.
Além da beleza estão os prazeres que moram nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, na pele. Como no último dia da criação, temos de concordar com o Criador: olhando para o que tinha sido feito, viu que tudo era multo bom.
E, no entanto, sem que haja qualquer explicação para esse fato, tendo todas as coisas, a alma continua vazia. Álvaro de Campos colocou este sentimento num poema:
“Dá-me lírios, lírios, e rosas também. Crisântemos, dálias, violetas e os girassóis acima de todas as flores. Mas por mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante, Faltar-me-á sempre qualquer coisa. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há aves. E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não chega.“
Como se uma nuvem cinzenta de tristeza-tédio cobrisse todas as coisas. A vida pesa. Caminha-se com dificuldade. O corpo se arrasta. As pessoas procuram a terapia alegando faltar um lírio aqui, uma rosa ali, um crisântemo acolá. Buscam, nessas coisas, a única coisa que importa: a alegria. Acontece que as fontes da alegria não são encontradas no mundo de fora. É inútil que me sejam dadas todas as flores do mundo: as fontes da alegria se encontram no mundo de dentro.
O mundo de dentro: as pessoas religiosas lhe dão o nome de alma. O que é a alma? Alma são as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Nosso corpo é urna fronteira entre as paisagens de fora e as paisagens de dentro. E elas são diferentes “O homem tem dois olhos“, disse o místico medieval Angelus Silésius. “Com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro ele vê o que é eterno e divino.“ Em algum lugar escondido das paisagens da alma se encontram as fontes da alegria - perdidas. Perdidas as fontes da alegria as paisagens da alma se apagam, o corpo fica como uma casa vazia. E quando a casa está vazia, vai-se a alegria. E as paisagens de fora ficam feias (a despeito de serem belas).
O mundo de fora é um mercado onde pássaros engaiolados são vendidos e comprados. As pessoas pensam que, se comprarem o pássaro certo, terão alegria. Mas pássaros engaiolados, por mais belos que sejam, não podem dar alegria. Na alma não há gaiolas.
A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria.
Muitas orações são produtos da insensatez das pessoas. Acham que o universo estaria melhor se Deus ouvisse os seus conselhos. Pedem que Deus lhes dê pássaros engaiolados, muitos pássaros. Nisso protestantes e católicos são iguais. Tagarelam. E nem se dão ao trabalho de ouvir. Não sabem que a oração é só um gemido. “Suspiro da criatura oprimida“: haverá definição mais bonita? São palavras de Marx. Suspiro: gemido sem palavras que espera ouvir a música divina, a música que, se ouvida, nos traria a alegria.
Gosto de ler orações. Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que se pronunciam a partir do silêncio, pedindo que o silêncio nos fale. A se acreditar em Ricardo Reis, é no silêncio que existe no intervalo das palavras que se ouve a voz de “um Ser qualquer, alheio a nós“, que nos fala. O nome do Ser? Não importa. Todos os nomes são metáforas para o Grande Mistério inominável que nos envolve. Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito mas não consegui. As orações põem música no meu silêncio.
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)
A Igreja como problema
Por Leonardo Boff
Mais que resposta a problemas a Igreja mesma é um problema. No século XVI com a Reforma protestante dilacerou-se o corpo da cristandade e na Igreja criou-se um problema: entre tantas Igrejas, qual é a verdadeira? Para reafirmar-se, organizou uma defensiva chamada Contra-Reforma. A partir do século XVII com o despontar da razão crítica e da secularização, agravou-se o problema da Igreja: tem sentido ainda a religião, a revelação e a Igreja? Novamente para defender-se, organizou outra defensiva contra o mundo moderno. Os dois processos ocasionaram uma excessiva centração da Igreja sobre si mesma e assim sua marginalização do curso da história. O Papa João XXIII que tinha enorme bom senso captou o equívoco da defensiva. E também foi suficientemente humilde para perceber que sozinho não poderia fazer um acerto de contas, sem dividir a Igreja. Convocou os bispos do mundo inteiro, reunidos no Concílio Vaticano II (1962-1965) para encontrar juntos uma resposta positiva. Em consequência a Igreja se entendeu a si mesma como Povo de Deus, viu a necessidade do diálogo ecumênico com as Igrejas e com as demais religiões e a urgência do mesmo diálogo com o mundo moderno, valorizando suas principais conquistas. Nasceu um novo rosto da Igreja moderna. É a Reforma Católica que tanta esperança e vida nova tem suscitado pelo mundo afora.
Entretanto, em todos os processos de mudanças há sempre resistências e oposições. Elas predominaram naquelas Igrejas que eram perseguidas como na Polônia e em setores importantes da Cúria vaticana, notoriamente conservadora.
Desta área veio o Papa João Paulo II. Com ele começa uma Contra-Reforma contra a Reforma Católica. Retoma o conceito de Igreja fundamentalmente como Hierarquia. Reafirma que as outras Igrejas não são propriamente Igrejas, tendo apenas elementos eclesiais e sustenta que a Igreja é a única religião verdadeira e que os professantes das religiões do mundo estão em grave risco de salvação. É o conteúdo essencial do documento Dominus Jesus do ano 2000 publicado pelo Card. Ratzinger e aprovado pelo Papa. O coração ecumênico continuou organizando encontros cordiais, mas a cabeça fundamentalista criou um sentimento avassalador: a Igreja Católica não muda mesmo e conserva sua arrogância fundamental. Este fechamento se manifestou em quase todos os âmbitos, na administração da Igreja, na doutrina, na moral especialmente no que se refere à sexualidade e à mulher. O Pontificado de João Paulo II significou um longo hiato no processo de atualização da Igreja. Foi uma tentativa de voltar ao modelo anterior, da Igreja bastião de verdades ao invés da casa de janelas e portas abertas a todos de boa-vontade.
O desafio nestes dias é este: irão os cardeais escolher um Papa que retoma a Reforma Católica do Concílio Vaticano II com as contribuições das Igrejas do Terceiro Mundo que deram centralidade aos pobres e à justiça ou um Papa que prolonga a Contra-Reforma, com o uso da dramatização mediática, da centralização na figura do Papa e na Cúria, com um discurso apenas moralizante sobre os pobres e a justiça? Pouco importa o Papa, o que importa é que tenha o bom senso de um João XXIII e convoque um concílio de todas as Igrejas para juntas darem uma contribuição sem arrogância às graves questões da humanidade. Que o Espírio os ilumine.
Mais que resposta a problemas a Igreja mesma é um problema. No século XVI com a Reforma protestante dilacerou-se o corpo da cristandade e na Igreja criou-se um problema: entre tantas Igrejas, qual é a verdadeira? Para reafirmar-se, organizou uma defensiva chamada Contra-Reforma. A partir do século XVII com o despontar da razão crítica e da secularização, agravou-se o problema da Igreja: tem sentido ainda a religião, a revelação e a Igreja? Novamente para defender-se, organizou outra defensiva contra o mundo moderno. Os dois processos ocasionaram uma excessiva centração da Igreja sobre si mesma e assim sua marginalização do curso da história. O Papa João XXIII que tinha enorme bom senso captou o equívoco da defensiva. E também foi suficientemente humilde para perceber que sozinho não poderia fazer um acerto de contas, sem dividir a Igreja. Convocou os bispos do mundo inteiro, reunidos no Concílio Vaticano II (1962-1965) para encontrar juntos uma resposta positiva. Em consequência a Igreja se entendeu a si mesma como Povo de Deus, viu a necessidade do diálogo ecumênico com as Igrejas e com as demais religiões e a urgência do mesmo diálogo com o mundo moderno, valorizando suas principais conquistas. Nasceu um novo rosto da Igreja moderna. É a Reforma Católica que tanta esperança e vida nova tem suscitado pelo mundo afora.
Entretanto, em todos os processos de mudanças há sempre resistências e oposições. Elas predominaram naquelas Igrejas que eram perseguidas como na Polônia e em setores importantes da Cúria vaticana, notoriamente conservadora.
Desta área veio o Papa João Paulo II. Com ele começa uma Contra-Reforma contra a Reforma Católica. Retoma o conceito de Igreja fundamentalmente como Hierarquia. Reafirma que as outras Igrejas não são propriamente Igrejas, tendo apenas elementos eclesiais e sustenta que a Igreja é a única religião verdadeira e que os professantes das religiões do mundo estão em grave risco de salvação. É o conteúdo essencial do documento Dominus Jesus do ano 2000 publicado pelo Card. Ratzinger e aprovado pelo Papa. O coração ecumênico continuou organizando encontros cordiais, mas a cabeça fundamentalista criou um sentimento avassalador: a Igreja Católica não muda mesmo e conserva sua arrogância fundamental. Este fechamento se manifestou em quase todos os âmbitos, na administração da Igreja, na doutrina, na moral especialmente no que se refere à sexualidade e à mulher. O Pontificado de João Paulo II significou um longo hiato no processo de atualização da Igreja. Foi uma tentativa de voltar ao modelo anterior, da Igreja bastião de verdades ao invés da casa de janelas e portas abertas a todos de boa-vontade.
O desafio nestes dias é este: irão os cardeais escolher um Papa que retoma a Reforma Católica do Concílio Vaticano II com as contribuições das Igrejas do Terceiro Mundo que deram centralidade aos pobres e à justiça ou um Papa que prolonga a Contra-Reforma, com o uso da dramatização mediática, da centralização na figura do Papa e na Cúria, com um discurso apenas moralizante sobre os pobres e a justiça? Pouco importa o Papa, o que importa é que tenha o bom senso de um João XXIII e convoque um concílio de todas as Igrejas para juntas darem uma contribuição sem arrogância às graves questões da humanidade. Que o Espírio os ilumine.
Sobre Teologia...
Teologia como a palavra sugere é o discurso sobre Deus e de todas as coisas vistas à luz de Deus. Constitui uma singularidade de nossa espécie que, num momento da evolução de milhões de anos, tenha surgido a consciência de Deus. Com essa palavra - Deus - se expressa um valor supremo, um sentido derradeiro do universo e da vida e uma Fonte originária de onde provêm todos os seres.
Esse Deus sempre habita o universo e acompanha os seres humanos. Os textos sagradas das religiões e das tradições espirituais testemunham a permanente atuação de Deus no mundo. Ele sempre atua favorecendo a vida, defendendo o fraco, oferecendo perdão ao caido e prometendo a eternidade da vida em comunhão com Ele.
Pertence à fé dos cristãos afirmar que Deus se acercou da existência humana e se fez Ele mesmo Deus em Jesus de Nazaré. Assim a promessa de união benaventurada com Ele se antecipa e será a destinação de todos os seres e da inteira criação.
Entre as muitas funções da teologia, hoje em dia, duas são mais urgentes: como a teologia colabora na libertação dos oprimidos que são nossos cristos crucificados hoje e como a teologia ajuda a preservar a memória de Deus para que não se perca o sentido e a sacralidade da vida humana, ameaçada por uma cultura da superficialidade, do consumo e do entretenimento. Devemos unir sempre fé com justiça donde nasce a perspectiva de libertação e importa manter a chama da lamparina sagrada sempre acesa, donde se alimenta a esperança humana de um futuro bom para a Terra e a humanidade.
Bibliografia mínima de orientação
- Barth, Karl, Introdução à teologia evangélica, Sinodal, São Leopoldo 1977.
- Boff, Clodovis, Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações, Vozes, Petrópolis 1993.
- Boff, Clodovis, Teoria do método teológico, Petrópolis, Vozes 1998.
- Boff, Leonardo e Clodovis, Como fazer teologia da libertação, Vozes, Petrópolis 1993.
- Boff, Leonardo, Experimentar Deus. A transparência de todas as coisas, Verus, Campinas 2002.
- Gutiérrez, Gustavo, Teologia da libertação. Perspectivas, Vozes, Petrópolis 1985.
- Latourelle, René, Teologia, ciência da salvação, Paulinas, S.Paulo 1971.
- Libânio, João Batista e Murad, Afonso, Introdução à teologia. Perfil, enfoques, tarefas, Loyola, S.Paulo 1996.
- Libanio, João Batista, Eu creio-nós cremos. Tratado da fé, Loyola, São Paulo 2000.
Esse Deus sempre habita o universo e acompanha os seres humanos. Os textos sagradas das religiões e das tradições espirituais testemunham a permanente atuação de Deus no mundo. Ele sempre atua favorecendo a vida, defendendo o fraco, oferecendo perdão ao caido e prometendo a eternidade da vida em comunhão com Ele.
Pertence à fé dos cristãos afirmar que Deus se acercou da existência humana e se fez Ele mesmo Deus em Jesus de Nazaré. Assim a promessa de união benaventurada com Ele se antecipa e será a destinação de todos os seres e da inteira criação.
Entre as muitas funções da teologia, hoje em dia, duas são mais urgentes: como a teologia colabora na libertação dos oprimidos que são nossos cristos crucificados hoje e como a teologia ajuda a preservar a memória de Deus para que não se perca o sentido e a sacralidade da vida humana, ameaçada por uma cultura da superficialidade, do consumo e do entretenimento. Devemos unir sempre fé com justiça donde nasce a perspectiva de libertação e importa manter a chama da lamparina sagrada sempre acesa, donde se alimenta a esperança humana de um futuro bom para a Terra e a humanidade.
Bibliografia mínima de orientação
- Barth, Karl, Introdução à teologia evangélica, Sinodal, São Leopoldo 1977.
- Boff, Clodovis, Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações, Vozes, Petrópolis 1993.
- Boff, Clodovis, Teoria do método teológico, Petrópolis, Vozes 1998.
- Boff, Leonardo e Clodovis, Como fazer teologia da libertação, Vozes, Petrópolis 1993.
- Boff, Leonardo, Experimentar Deus. A transparência de todas as coisas, Verus, Campinas 2002.
- Gutiérrez, Gustavo, Teologia da libertação. Perspectivas, Vozes, Petrópolis 1985.
- Latourelle, René, Teologia, ciência da salvação, Paulinas, S.Paulo 1971.
- Libânio, João Batista e Murad, Afonso, Introdução à teologia. Perfil, enfoques, tarefas, Loyola, S.Paulo 1996.
- Libanio, João Batista, Eu creio-nós cremos. Tratado da fé, Loyola, São Paulo 2000.
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