terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Campanha da Fraternidade 2010





11/01/2010 - Ecumênica


Maiá Menezes - O Globo, em 10/09/2009

RIO - O tema da Campanha da Fraternidade 2010, que será oficialmente lançadano dia 17 de fevereiro, foi divulgado nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro, aos pés do Cristo Redentor e sob intensa névoa.

A campanha do ano que vem reunirá as cinco igrejas do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil, entre elas a Católica. Será ecumênica pela terceira vez.

Tirada do evangelho de São Mateus, o lema "Vocês não podem servir a Deus e ao diabo" traduz a preocupação com "uma economia a serviço da vida", que caminhe para uma "sociedade sem exclusão", segundo o reverendo anglicano Luiz Alberto, secretário-geral do Conic.

Apesar de não ser o eixo principal da campanha, também consta no material e no discurso dos que a coordenam a preocupação com a mistura entre religião e dinheiro. Em seu discurso, o reverendo Luiz Alberto fez o alerta:

- Hoje, como no passado, as comunidades cristãs devem se interrogar sobre seu patrimônio, seu uso do dinheiro e seu compromisso com a transformação econômica e social do país.

O texto-base, divulgado ontem, também faz referência a essa preocupação. "As comunidades cristãs precisam resistir à tentação de transformar o culto a Deus em moeda para a obtenção de prosperidade. O cristão é um servidor, não alguém que recorre a Deus em busca de favores", diz trecho na página 66 do documento.

Dom Dimas Lara Barbosa, secretário geral da CNBB, afirmou, em entrevista, que a teologia da prosperidade é "neopagã" e se confronta com o evangelho.

Contundente, o documento faz ainda críticas à dificuldade na implantação de políticas públicas, como a reforma agrária:

"As fracas políticas de reforma agrária falharam nos seus objetivos de reduzir a concentração a terra e também falharam em oferecer condições dignas de trabalho a milhões de famílias de trabalhadores que foram expulsos da terra por meios corruptos e violentos ou por tragédias climáticas. Há uma intensa e contínua expansão do agronegócio e de várias formas de atividade econômica, baseadas no uso irresponsável dos recursos naturais". O texto fala ainda em corrupção: "Tomamos conhecimento todos os dias de uma deplorável série de formas de corrupção, com políticos que usam seu cargo para obter lucro e privilégio para si e para seus aliados, colocando interesses econômicos acima das reais necessidades do povo".

Convidada para o encontro, a senadora Marina Silva (PV-AC), evangélica da Assembleia de Deus, foi saudada por turistas como candidata à presidência e afirmou que "não temos como ser solidários sem preservarmos a base do desenvolvimento". Ela disse ainda que costuma ser criticada por acreditar em utopias, mas que o "pragmatismo tem destruído a natureza e as relações políticas".

Aprender com as abelhas...

Jesus veio buscar e salvar o perdido (João 3.16-21)

Por Rev. Guilhermino Cunha


“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (VS.16)

A missão do Filho de Deus foi buscar e salvar o que se havia perdido. O pecado aliena o homem de Deus, o faz viver em rebeldia e contrariamente ao que a Palavra de Deus ordena. Desobediência e rebeldia fazem parte do cerne da Queda. Esta palavra é o que ela significa: Cair da Graça de Deus, deixar de ouvir a voz de Deus e obedecê-lo, para ouvir a voz enganosa da Serpente, do Diabo.

(I) SALVOS DE QUE E PARA QUE?
• Somos salvos dos nossos pecados pesados: “Dos teus pecados não me lembrarei mais, diz o Senhor.” (Jeremias 31.34). Somos libertos da culpa e do peso daqueles pecados.
• Somos salvos dos nossos pecados presentes: Eu e você vivemos pela Graça, pelas misericórdias de Deus que se renovam a cada manhã, como ensina o profeta Jeremias em Lamentações 3.22 ss. Quem sobrevive pelo perdão, pela graça e pela misericórdia, não pode, nem deve viver julgando ou prejulgando uns aos outros, Como quase sempre acontece.
• Somos salvos dos nossos pecados futuros: Há poder no sangue de Jesus para perdoar e salvar a todos os que creem e confessam a Jesus Cristo. “ A Redenção é universal, mas a salvação é pessoal.” Acontece para os que estão “em Cristo”. Neste mês da Reforma, reafirmamos: “Solus Christus” – Cristo somente e apenas Cristo; “Sola Gratia”, a Graça somente; “Sola Scriptura”, a Escritura somente; e “Sola Fides”, a fé somente.
• Seremos, um dia, postos a salvo e totalmente imunes à presença do pecado. É claro que isto somente se dará do outro lado da eternidade. Por enquanto, precisamos orar como Jesus ensinou: ... Não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal.” (MT 6.13).

(II) LIÇÕES DEVOCIONAIS PRECIOSAS DE JOÃO 3.16
1ª) A expressão “de tal maneira” nos ensina que o amor de Deus foi em grau infinito e de tal maneira glorioso, unilateral e incondicional que nos desafia a amar, como Ele nos amou; a perdoar, como Ele nos perdoou; e a compreender, como Ele nos compreende. Por mais difícil ou quase impossível que seja, o ideal a ser perseguido é este.

2ª) Deus amou, ama e amará sempre: porque DEUS É AMOR, SEM QUE O AMOR SEJA DEUS. Deus é sempre pleno de amor e vida. Tomemos todas as virtudes humanas, elevemo-las à sua máxima potência, o quadro resultante será tão somente uma pálida sombra se comparado com o amor-vida que é Deus. Basta lembrar 1ª de João 4.19: “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro”, para compreendermos que o nosso amor é resposta ao grande e maravilhoso amor de Deus.
3ª) O sujeito do amor é Deus o objeto é o homem e o mundo. As palavras “para que todo aquele que nele crê” sinalizam que não são as árvores, nem os animais, nem as aves ou os peixes, e sim a raça humana é o objeto do amor salvífico de Deus..

4ª) O propósito de Deus é “para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Deus não abandonou a humanidade; em Cristo, Ele veio “buscar e salvar o perdido”. Levantar o caído, em nome de Jesus! É a Missão da Igreja.
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Concluindo,
• Deus veio, em Cristo, para buscar e salvar; não para condenar. A salvação é oferecida gratuitamente, em Cristo: “Não endureças o teu coração...”
• O propósito redentor não se limita ao “povo eleito”, os judeus; mas a todos os eleitos, em todos os tempos e lugares;
• O objetivo essencial da primeira vinda de Cristo foi para salvar e não para julgar;
• O que crê não será condenado, o que não crê já está condenado. A pessoa que tem Cristo, pela fé, não é julgada, ou seja, Romanos 8.1 é verdade.
• A pessoa que rejeita a Jesus Cristo, como o Filho de Deus que veio em carne, já está condenada: o julgamento final será apenas declaratório.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Oração






Por Rubem Alves



Hoje vou escrever sobre a arte de "rezar". Dirão que esse não é tópico que devesse ser tratado por um terapeuta. Rezas e orações são coisas de padres, pastores e gurus religiosos, a serem ensinadas em igrejas, mosteiros e terreiros. Acontece que eu sei que o que as pessoas desejam, ao procurar a terapia, é reaprender a esquecida arte de rezar. Claro que elas não sabem disto. Falam sobre outras coisas, dez mil coisas. Não sabem que a alma deseja uma só coisa, cujo nome esquecemos. Como disse T. S. Eliot, temos conhecimento do movimento, mas não da tranqüilidade; conhecimento das palavras e ignorância da Palavra. Todo o nosso conhecimento nos leva para mais perto da nossa ignorância, e toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte.

A terapia é a busca desse nome esquecido. E quando ele é lembrado e é pronunciado com toda a paixão do corpo e da alma, a esse ato se dá o nome de poesia. A esse ato se pode dar também o nome de oração.

Por detrás da nossa tagarelice (falamos muito e escutamos pouco) está escondido o desejo de orar. Muitas palavras são ditas porque ainda não encontramos a única palavra que importa. Eu gostaria de demonstrar isso - e a demonstração começa com um passeio. Para começar, abra bem os olhos! Veja como este mundo é luminoso e belo! Tão bonito que Nietzsche até mesmo lhe compôs um poema:

“Olhei para este mundo - e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura dourada maçã de pele de veludo fresco... Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu...“

Tudo está bem. Tudo está em ordem. Nada impede o deleite dessa dádiva. Ninguém doente. Nenhuma privação econômica terrível. E há mesmo o gostar das pessoas com quem se vive, sem o que a vida teria um gosto amargo.

Mas isso não é tudo. Além das necessidades vitais básicas a alma precisa de beleza. E a beleza - o mundo a serve a mancheias. Está em todos os lugares, na lua, na rua, nas constelações, nas estações, no mar, no ar, nos rios, nas cachoeiras, na chuva, no cheiro das ervas, na luz que cintila na água crespa das lagoas, nos jardins, nos rostos, nas vozes, nos gestos.

Além da beleza estão os prazeres que moram nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, na pele. Como no último dia da criação, temos de concordar com o Criador: olhando para o que tinha sido feito, viu que tudo era multo bom.

E, no entanto, sem que haja qualquer explicação para esse fato, tendo todas as coisas, a alma continua vazia. Álvaro de Campos colocou este sentimento num poema:

“Dá-me lírios, lírios, e rosas também. Crisântemos, dálias, violetas e os girassóis acima de todas as flores. Mas por mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante, Faltar-me-á sempre qualquer coisa. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há aves. E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não chega.“

Como se uma nuvem cinzenta de tristeza-tédio cobrisse todas as coisas. A vida pesa. Caminha-se com dificuldade. O corpo se arrasta. As pessoas procuram a terapia alegando faltar um lírio aqui, uma rosa ali, um crisântemo acolá. Buscam, nessas coisas, a única coisa que importa: a alegria. Acontece que as fontes da alegria não são encontradas no mundo de fora. É inútil que me sejam dadas todas as flores do mundo: as fontes da alegria se encontram no mundo de dentro.

O mundo de dentro: as pessoas religiosas lhe dão o nome de alma. O que é a alma? Alma são as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Nosso corpo é urna fronteira entre as paisagens de fora e as paisagens de dentro. E elas são diferentes “O homem tem dois olhos“, disse o místico medieval Angelus Silésius. “Com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro ele vê o que é eterno e divino.“ Em algum lugar escondido das paisagens da alma se encontram as fontes da alegria - perdidas. Perdidas as fontes da alegria as paisagens da alma se apagam, o corpo fica como uma casa vazia. E quando a casa está vazia, vai-se a alegria. E as paisagens de fora ficam feias (a despeito de serem belas).

O mundo de fora é um mercado onde pássaros engaiolados são vendidos e comprados. As pessoas pensam que, se comprarem o pássaro certo, terão alegria. Mas pássaros engaiolados, por mais belos que sejam, não podem dar alegria. Na alma não há gaiolas.

A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria.

Muitas orações são produtos da insensatez das pessoas. Acham que o universo estaria melhor se Deus ouvisse os seus conselhos. Pedem que Deus lhes dê pássaros engaiolados, muitos pássaros. Nisso protestantes e católicos são iguais. Tagarelam. E nem se dão ao trabalho de ouvir. Não sabem que a oração é só um gemido. “Suspiro da criatura oprimida“: haverá definição mais bonita? São palavras de Marx. Suspiro: gemido sem palavras que espera ouvir a música divina, a música que, se ouvida, nos traria a alegria.

Gosto de ler orações. Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que se pronunciam a partir do silêncio, pedindo que o silêncio nos fale. A se acreditar em Ricardo Reis, é no silêncio que existe no intervalo das palavras que se ouve a voz de “um Ser qualquer, alheio a nós“, que nos fala. O nome do Ser? Não importa. Todos os nomes são metáforas para o Grande Mistério inominável que nos envolve. Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito mas não consegui. As orações põem música no meu silêncio.

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

A Igreja como problema

Por Leonardo Boff

Mais que resposta a problemas a Igreja mesma é um problema. No século XVI com a Reforma protestante dilacerou-se o corpo da cristandade e na Igreja criou-se um problema: entre tantas Igrejas, qual é a verdadeira? Para reafirmar-se, organizou uma defensiva chamada Contra-Reforma. A partir do século XVII com o despontar da razão crítica e da secularização, agravou-se o problema da Igreja: tem sentido ainda a religião, a revelação e a Igreja? Novamente para defender-se, organizou outra defensiva contra o mundo moderno. Os dois processos ocasionaram uma excessiva centração da Igreja sobre si mesma e assim sua marginalização do curso da história. O Papa João XXIII que tinha enorme bom senso captou o equívoco da defensiva. E também foi suficientemente humilde para perceber que sozinho não poderia fazer um acerto de contas, sem dividir a Igreja. Convocou os bispos do mundo inteiro, reunidos no Concílio Vaticano II (1962-1965) para encontrar juntos uma resposta positiva. Em consequência a Igreja se entendeu a si mesma como Povo de Deus, viu a necessidade do diálogo ecumênico com as Igrejas e com as demais religiões e a urgência do mesmo diálogo com o mundo moderno, valorizando suas principais conquistas. Nasceu um novo rosto da Igreja moderna. É a Reforma Católica que tanta esperança e vida nova tem suscitado pelo mundo afora.

Entretanto, em todos os processos de mudanças há sempre resistências e oposições. Elas predominaram naquelas Igrejas que eram perseguidas como na Polônia e em setores importantes da Cúria vaticana, notoriamente conservadora.

Desta área veio o Papa João Paulo II. Com ele começa uma Contra-Reforma contra a Reforma Católica. Retoma o conceito de Igreja fundamentalmente como Hierarquia. Reafirma que as outras Igrejas não são propriamente Igrejas, tendo apenas elementos eclesiais e sustenta que a Igreja é a única religião verdadeira e que os professantes das religiões do mundo estão em grave risco de salvação. É o conteúdo essencial do documento Dominus Jesus do ano 2000 publicado pelo Card. Ratzinger e aprovado pelo Papa. O coração ecumênico continuou organizando encontros cordiais, mas a cabeça fundamentalista criou um sentimento avassalador: a Igreja Católica não muda mesmo e conserva sua arrogância fundamental. Este fechamento se manifestou em quase todos os âmbitos, na administração da Igreja, na doutrina, na moral especialmente no que se refere à sexualidade e à mulher. O Pontificado de João Paulo II significou um longo hiato no processo de atualização da Igreja. Foi uma tentativa de voltar ao modelo anterior, da Igreja bastião de verdades ao invés da casa de janelas e portas abertas a todos de boa-vontade.

O desafio nestes dias é este: irão os cardeais escolher um Papa que retoma a Reforma Católica do Concílio Vaticano II com as contribuições das Igrejas do Terceiro Mundo que deram centralidade aos pobres e à justiça ou um Papa que prolonga a Contra-Reforma, com o uso da dramatização mediática, da centralização na figura do Papa e na Cúria, com um discurso apenas moralizante sobre os pobres e a justiça? Pouco importa o Papa, o que importa é que tenha o bom senso de um João XXIII e convoque um concílio de todas as Igrejas para juntas darem uma contribuição sem arrogância às graves questões da humanidade. Que o Espírio os ilumine.

Sobre Teologia...

Teologia como a palavra sugere é o discurso sobre Deus e de todas as coisas vistas à luz de Deus. Constitui uma singularidade de nossa espécie que, num momento da evolução de milhões de anos, tenha surgido a consciência de Deus. Com essa palavra - Deus - se expressa um valor supremo, um sentido derradeiro do universo e da vida e uma Fonte originária de onde provêm todos os seres.

Esse Deus sempre habita o universo e acompanha os seres humanos. Os textos sagradas das religiões e das tradições espirituais testemunham a permanente atuação de Deus no mundo. Ele sempre atua favorecendo a vida, defendendo o fraco, oferecendo perdão ao caido e prometendo a eternidade da vida em comunhão com Ele.

Pertence à fé dos cristãos afirmar que Deus se acercou da existência humana e se fez Ele mesmo Deus em Jesus de Nazaré. Assim a promessa de união benaventurada com Ele se antecipa e será a destinação de todos os seres e da inteira criação.

Entre as muitas funções da teologia, hoje em dia, duas são mais urgentes: como a teologia colabora na libertação dos oprimidos que são nossos cristos crucificados hoje e como a teologia ajuda a preservar a memória de Deus para que não se perca o sentido e a sacralidade da vida humana, ameaçada por uma cultura da superficialidade, do consumo e do entretenimento. Devemos unir sempre fé com justiça donde nasce a perspectiva de libertação e importa manter a chama da lamparina sagrada sempre acesa, donde se alimenta a esperança humana de um futuro bom para a Terra e a humanidade.




Bibliografia mínima de orientação
- Barth, Karl, Introdução à teologia evangélica, Sinodal, São Leopoldo 1977.
- Boff, Clodovis, Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações, Vozes, Petrópolis 1993.
- Boff, Clodovis, Teoria do método teológico, Petrópolis, Vozes 1998.
- Boff, Leonardo e Clodovis, Como fazer teologia da libertação, Vozes, Petrópolis 1993.
- Boff, Leonardo, Experimentar Deus. A transparência de todas as coisas, Verus, Campinas 2002.
- Gutiérrez, Gustavo, Teologia da libertação. Perspectivas, Vozes, Petrópolis 1985.
- Latourelle, René, Teologia, ciência da salvação, Paulinas, S.Paulo 1971.
- Libânio, João Batista e Murad, Afonso, Introdução à teologia. Perfil, enfoques, tarefas, Loyola, S.Paulo 1996.
- Libanio, João Batista, Eu creio-nós cremos. Tratado da fé, Loyola, São Paulo 2000.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A saga dos Irmãos Morávios



Os irmãos morávios e a igreja valdense são os únicos grupos protestantes atuais cujas raízes mais remotas são anteriores à Reforma do século 16. Os valdenses tiveram suas origens em um movimento reformista iniciado por volta de 1175 por Valdès, um comerciante de Lião, no sul da França. Expulsos da Igreja Católica em 1184, seus simpatizantes enfrentaram heroicamente séculos de perseguição, abraçando eventualmente a Reforma Protestante. Refugiaram-se principalmente nos vales alpinos do norte da Itália, na região conhecida como Piemonte, a sudoeste de Turim. Os irmãos morávios, por sua vez, têm uma história ainda mais complexa, mas não menos inspiradora, cujos primórdios remontam à Inglaterra do final do século 14.

De João Wyclif a João Hus
John Wyclif (c.1325-1384) nasceu em Yorkshire, estudou na Universidade de Oxford e abraçou o sacerdócio. Na década de 1360, adquiriu grande reputação em Oxford e outros centros intelectuais como brilhante professor e escritor de filosofia. Posteriormente, tornou-se conselheiro teológico do rei e prestou serviços à coroa inglesa. Defendeu a teoria de que o poder civil tinha o direito de se apoderar das propriedades do clero corrupto. Suas opiniões foram condenadas pelo papa em 1377, mas ele teve o apoio de pessoas influentes e do povo. Após o Grande Cisma (1378), com a existência simultânea de dois papas rivais, suas idéias tornaram-se mais radicais e ele acabou por rejeitar toda a estrutura tradicional da igreja medieval. Em uma série de tratados teológicos, afirmou a autoridade suprema das Escrituras, definiu a igreja verdadeira como o conjunto dos eleitos, e questionou o papado e a transubstanciação. Além disso, incentivou a primeira tradução da Bíblia completa para a língua inglesa (1384).

Eventualmente, Wyclif perdeu o apoio da nobreza e de muitos simpatizantes, mas viveu em paz os seus últimos anos, vindo a falecer em sua paróquia, Lutterworth, no dia 28 de dezembro de 1384. Seus seguidores, conhecidos como lolardos, foram duramente reprimidos nas décadas seguintes. Ensinavam que a missão principal de um sacerdote era pregar as Escrituras e que a Bíblia dever ser acessível a todos nas várias línguas vulgares. Essas idéias contribuiriam para a ampla aceitação da Reforma Protestante pelos ingleses no século 16.

No século 14, a Boêmia (Tchecoslováquia) fazia parte do Sacro Império Germânico. Politicamente, o país estava dividido por conflitos entre os tchecos e a comunidade imigrante alemã, mais poderosa. Em 1382, a Boêmia, até então pouco ligada à Inglaterra, aproximou-se deste país por meio do casamento de uma princesa tcheca com o rei Ricardo II. Jovens tchecos passaram a estudar em Oxford e conheceram as doutrinas de Wyclif, que logo levaram para a sua terra, especialmente para a Universidade de Praga (fundada em 1348). Entre os professores que abraçaram muitas idéias de Wyclif estava o ardoroso Jan Hus (c. 1373-1415).

Hus nasceu na vila de Husinec, estudou na Universidade de Praga e foi ordenado sacerdote em 1400. Pouco antes da ordenação teve uma experiência de conversão pelo estudo da Bíblia e se tornou um zeloso defensor de reformas eclesiásticas. Além de lecionar na universidade, em 1402 foi nomeado pregador da Capela de Belém, o centro do movimento reformista tcheco, alcançando enorme popularidade por suas pregações. Como João Wyclif, ele ensinava que a igreja verdadeira consiste somente dos eleitos, dos quais o cabeça é Cristo, e não o papa. Embora defendesse a autoridade tradicional do clero, Hus afirmava que somente Deus pode perdoar pecados. Acreditava que nem o papa nem os cardeais podiam estabelecer como autêntica uma doutrina que fosse contrária à Escritura, e que nenhum cristão devia obedecer às suas ordens quando estas se revelassem abertamente erradas. Dizia que a igreja devia ter uma vida de simplicidade e pobreza, à semelhança de Cristo. A única lei da igreja era a Bíblia, especialmente o Novo Testamento, daí a grande importância da pregação. Condenou a corrupção do clero, a adoração de imagens, os falsos milagres, as peregrinações supersticiosas e a venda das indulgências, mas manteve a transubstanciação.

A partir de 1410, as autoridades eclesiásticas e seculares começaram a tomar medidas drásticas contra os wyclifitas. Apesar de ser altamente estimado pelo povo, Hus foi excomungado e seguiu para o exílio no sul da Boêmia, onde escreveu sua principal obra, De Ecclesia (Sobre a Igreja). Munido de um salvo-conduto fornecido pelo imperador alemão Sigismundo, compareceu ao célebre Concílio de Constança (1414-1418), no sul da Alemanha, a fim de justificar as suas posições. Em 4 de maio de 1415, o concílio condenou formalmente João Wyclif como herege e ordenou que o seu corpo fosse retirado da terra consagrada (essa ordem só seria cumprida em 1428). Hus, considerado por todos um wyclifita, recusou-se firmemente a abjurar as suas idéias. No dia 6 de julho de 1415 foi sentenciado e queimado na fogueira, enfrentando a morte com grande coragem e dignidade.

A Unitas Fratrum e os Irmãos Morávios
A notícia da morte de Hus produziu grande revolta na Boêmia, que seria agravada pela condenação do seu amigo e colega Jerônimo de Praga, também levado à fogueira pelo Concílio de Constança, em 30 de maio de 1416. Outra fonte de protestos foi a proibição, pelo mesmo concílio, da ministração do cálice da Ceia aos leigos, prática que se tornara o símbolo do movimento hussita. Surgiram duas facções no movimento: um partido moderado e aristocrático, sediado em Praga, conhecido como utraquistas (referência à comunhão sub utraque, isto é, “em ambas” as espécies) ou calixtinos (do latim calix = cálice), e um partido radical, popular, os taboritas (de Tábor, a sua fortaleza). Os primeiros rejeitaram somente as práticas que consideravam proibidas pela “lei de Deus”, a Bíblia, ao passo que os taboritas repudiavam todas as práticas não sancionadas expressamente pelas Escrituras.

Após um período de conflitos, as duas facções se uniram em 1420, adotando uma agenda religiosa comum, “Os Quatro Artigos de Praga”, que exigiam a livre pregação da Palavra de Deus, o cálice para os leigos, a pobreza apostólica e uma vida de austeridade para clérigos e leigos. Durante alguns anos, eles se envolveram em várias guerras vitoriosas contra os seus adversários. Uma tentativa de acordo com a igreja católica produziu novas lutas internas, sendo os taboritas derrotados pelos utraquistas em 1434, na batalha de Lipany. Fracassado o acordo com o catolicismo, os utraquistas tornaram-se um grupo religioso autônomo, cuja plena paridade com os católicos foi declarada pelo Parlamento da Boêmia em 1485. Alguns anos antes, em 1457, havia surgido a Unitas Fratrum (Unidade dos Irmãos Boêmios), reunindo elementos taboritas, utraquistas e valdenses. Essa igreja absorveu o que havia de mais vital no movimento hussita e tornou-se a precursora dos irmãos morávios.

Com o advento da Reforma, os “irmãos unidos” abraçaram o protestantismo. Nessa época, eles contavam com cerca de 400 igrejas locais e 150 a 200 mil membros na Boêmia e na vizinha Morávia. Expulsos de sua pátria durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), espalharam-se por diversas regiões da Europa e perderam muitos adeptos. Um ano especialmente amargo foi 1621, quando quinze irmãos foram decapitados no “dia de sangue”, muitos crentes foram mandados para as minas ou masmorras, igrejas foram fechadas, escolas destruídas, Bíblias, hinários e catecismos foram queimados. Os poucos remanescentes continuaram a realizar as suas funções religiosas em segredo e a orar pelo renascimento da sua igreja. Um importante líder desse período aflitivo foi o notável educador Jan Amos Comenius (1592-1672), eleito bispo dos irmãos morávios em 1632.

O conde Zinzendorf e Herrnhut
Em 1722, sobreviventes dos irmãos unidos que falavam alemão, residentes no norte da Morávia, começaram a buscar refúgio na vizinha Saxônia, sob a liderança de um carpinteiro, Christian David. O jovem conde Nikolaus Ludwig von Zinzendorf (1700-1760) permitiu que eles fundassem uma vila em sua propriedade de Berthelsdorf, cerca de 110 quilômetros a leste de Dresden. Zinzendorf era fruto do pietismo, um influente movimento que havia surgido recentemente no luteranismo alemão. Esse movimento teve como líderes iniciais Phillip Jacob Spener (1635-1705) e August Hermann Francke (1663-1727), sendo seu principal centro de atividade a cidade de Halle, também na Saxônia, a terra de Martinho Lutero. Os pietistas davam grande ênfase à devoção, à experiência e aos sentimentos, em contraste com a ortodoxia, credos e rituais. Também valorizavam a conversão pessoal, o sacerdócio universal dos crentes, o estudo das Escrituras, os pequenos grupos para comunhão e auxílio mútuo, e um cristianismo prático voltado para educação, missões e beneficência.

Nascido em uma família aristocrática, Zinzendorf recebeu uma educação pietista em Halle dos 10 aos 17 anos. Desde a infância revelou uma intensa devoção pessoal a Cristo e mesmo depois de ingressar no serviço público, em 1721, continuou a ter como interesse predominante o cultivo da “religião do coração”. Foi então que entrou em contato com os morávios. A vila que estes fundaram em sua propriedade recebeu o nome de Herrnhut (“a vigília do Senhor”). A comunidade cresceu e logo se uniram a ela muitos pietistas alemães e outros entusiastas religiosos. Inicialmente Zinzendorf lhes deu pouca atenção, mas em 1727 começou a assumir a liderança espiritual do grupo. Superadas algumas divisões iniciais, no dia 13 de agosto de 1727 foi realizado um marcante culto de comunhão que veio a ser considerado o renascimento da antiga Unitas Fratrum, a Igreja Morávia renovada. A partir de então, Herrnhut tornou-se uma disciplinada e fervorosa comunidade cristã, um corpo de soldados de Cristo ansioso em promover a sua causa no país e no exterior.

Embora Zinzendorf desejasse que os morávios permanecessem como membros da igreja estatal da Saxônia (luterana), gradualmente eles formaram uma igreja separada. Em 1745 a Igreja Morávia já estava plenamente organizada com seus bispos, presbíteros e diáconos, embora seu governo fosse, e ainda seja, mais presbiteriano que episcopal. A essa altura o moravianismo estava criando uma liturgia de grande beleza e uma rica tradição hinológica. A Igreja Morávia restaurada permaneceu pequena, mas sua influência se fez sentir em toda a Europa. Seus primeiros bispos foram David Nitschmann (1735) e o próprio Zinzendorf (1737), que, após uma vida de intensa atividade missionária e pastoral na Europa e na América do Norte, faleceu em Herrnhut em 1760. Certa vez havia declarado, referindo-se a Cristo: “Eu tenho uma paixão; é ele e ele somente”.

Até aos confins da terra
Com o seu zelo por Cristo, os morávios escreveram uma das páginas mais nobres das missões cristãs em todos os tempos. Nenhum grupo protestante teve maior consciência do dever missionário e nenhum demonstrou tamanha consagração a esse serviço em proporção ao número de seus membros. Numa viagem a Copenhague para assistir à coroação do rei dinamarquês Cristiano VI, Zinzendorf conheceu alguns nativos das Índias Ocidentais e da Groenlândia. Regressou a Herrnhut cheio de fervor missionário e, em conseqüência disso, Leonhard Dober e David Nitschmann iniciaram uma missão aos escravos africanos em St. Thomas, nas Ilhas Virgens, em 1732, e Christian David e outros seguiram para a Groenlândia no ano seguinte.

Em 1734, um grupo liderado por August Gottlieb Spangenberg (1704-1792) começou a trabalhar na Geórgia. No Natal de 1741, o próprio Zinzendorf visitou a América e deu o nome de Bethlehem (Belém) à colônia que os morávios da Geórgia estavam criando na Pensilvânia. Essa cidade se tornaria a sede americana do movimento. O mais famoso missionário morávio aos índios norte-americanos foi David Zeisberger (1721-1808), que trabalhou entre os creeks da Geórgia a partir de 1740 e entre os iroqueses desde 1743 até a sua morte.

Herrnhut tornou-se um centro de atividade missionária, iniciando missões no Suriname, Costa do Ouro, África do Sul, Argélia, Guiana, Jamaica, Antigua e outros locais. Em 1748, foi iniciada uma missão aos judeus em Amsterdã. Até 1760, o ano da morte de Zinzendorf, os morávios haviam enviado 226 missionários a dez países e cerca de 3 mil conversos haviam sido batizados. Outros locais alcançados posteriormente foram Egito, Labrador, Espanha, Ceilão, Romênia e Constantinopla. Em 1832, havia 42 estações missionárias morávias ao redor do mundo. Os nomes dos primeiros campos missionários mostram uma característica do trabalho morávio: eram em geral locais difíceis e inóspitos, exigindo uma paciência e dedicação toda especial, traço que até hoje caracteriza o trabalho missionário desse grupo.

Conclusão
Com seu heroísmo, apego às Escrituras e consagração a Deus, os irmãos morávios, embora pouco numerosos, exerceram uma forte influência espiritual sobre outros grupos e movimentos protestantes, especialmente na Inglaterra. A convivência com alguns morávios causou profundo impacto em João Wesley e contribuiu para a sua conversão e o surgimento do metodismo. William Carey, o pioneiro das missões batistas, os admirava grandemente e apelou para o seu exemplo de obediência. Eles também inspiraram a criação de duas das primeiras agências protestantes de missões — a Sociedade Missionária de Londres (1795) e a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804). Assim completou-se um ciclo extraordinário: a obra do pré-reformador inglês João Wyclif contribuiu para o surgimento dos morávios e, séculos depois, estes foram uma bênção para a Inglaterra e, por meio dela, para muitos outros povos.

Por Alderi Souza de Matos, doutor em história da igreja pela Universidade de Boston.